guerras do farrapos

Guerra dos Farrapos

Guerra dos Farrapos

Guilherme Litran: Carga de cavalaria Farroupilha, Museu Júlio de Castilhos.
Data: 19 de setembro de 18351 de março de 1845
Local: Sul do Brasil
Desfecho: Vitória militar das forças imperais, reanexação das repúblicas separatistas.
Intervenientes
República Rio-Grandense
República Juliana
Império do Brasil
Principais líderes
Bento Gonçalves da Silva
Antônio de Sousa Neto
Giuseppe Garibaldi
Lima e Silva

Guerra dos Farrapos ou Revolução Farroupilha são os nomes pelos quais ficou conhecida uma revolução ou guerra regional de caráter republicano contra o governo imperial do Brasil, a então província de São Pedro do Rio Grande do Sul, e que resultou na declaração de independência da província como estado republicano, dando origem à República Rio-Grandense. Foi de 1835 a 1845: é o conflito armado mais duradouro que ocorreu no continente americano.

A revolução, que originalmente não tinha caráter separatista, influenciou movimentos que ocorreram em outras províncias brasileiras: irradiando influência para a Revolução Liberal que viria ocorrer em São Paulo em 1842 e para a Revolta denominada Sabinada na Bahia em 1837, ambas de ideologia do Partido Liberal da época, moldado nas Lojas Maçônicas . Inspirou-se na recém finda guerra de independência da República Oriental do Uruguai , Guerra da Cisplatina, mantendo conexões com a nova república do Rio da Prata, além de províncias independentes argentinas, como Corrientes e Entre Ríos. Chegou a expandir-se a corte brasileira , sul da província de Santa Catarina, em Laguna com a proclamação da República Juliana e ao planalto catarinense de Lages. Teve como líderes: Bento Gonçalves, General Neto, Onofre Pires, Lucas de Oliveira, Vicente da Fontoura, Pedro Boticário, David Canabarro, Vicente Ferrer de Almeida, José Mariano de Mattos, além de receber inspiração ideológica de italianos carbonários refugiados, como o cientista Tito Lívio Zambeccari e o jornalista Luigi Rossetti, ambos com participação no movimento de independência no Uruguai. Giuseppe Garibaldi , embora não pertencesse a carbonária, esteve envolvido em movimentos republicanos na Itália, como o risorgimento, e condenado, veio em fuga para a América do Sul. A questão da abolição da escravatura também esteve envolvida, organizando-se exércitos contando com homens negros com aspiração da liberdade

Os revolucionários sul-riograndenses vinculados ao Partido Liberal foram alcunhados pejorativamente de Farrapos ou Farroupilhas. O termo, oriundo do parlamento, com o tempo foi adotado pelos próprios revolucionários, de forma semelhante à que ocorreu com os sans-cullotes à época da Revolução Francesa. Seus oponentes imperiais eram por eles chamados de caramurus, termo jocoso em geral aplicado aos membros do Partido Conservador no Parlamento Imperial.

Índice

[esconder]

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Antecedentes e causas


Trecho do quadro A batalha dos Farrapos, de Wasth Rodrigues.
Conflitos na História do Brasil
– Império –
Primeiro Reinado
Guerra da Independência: 1822-1823
Independência da Bahia: 1821-1823
Confederação do Equador: 1824
Guerra contra as Províncias Unidas: 1825-1828
Revolta dos Mercenários: 1828
Período Regencial
Federação do Guanais: 1832
Revolta dos Malês: 1835
Cabanagem: 1835-1840
Farroupilha: 1835-1845
Sabinada: 1837-1838
Balaiada: 1838-1841
Segundo Reinado
Revoltas Liberais: 1842
Revolta Praieira: 1848-1850
Questão Christie: 1863
Guerra contra Oribe e Rosas: 1851-1852
Guerra contra Aguirre: 1864
Guerra do Paraguai: 1864-1870
Revolta dos Muckers: 1874
Revolta do Quebra-Quilos: 1874-1875

Embora a justificativa original estivesse no conflito político entre os Liberais que propugnavam um modelo de estado com maior autonomia às províncias, e o modelo imposto pela constituição de D. Pedro I de caráter unitário, o movimento encontrou forças na posição secundária, econômica e política, que a Província de São Pedro do Rio Grande ocupava nos anos que se sucederam à Independência. Diferentemente de outras províncias, cuja produção de gêneros primários se voltava para o mercado externo, como o açúcar e o café, a do Rio Grande do Sul produzia principalmente para o mercado interno. Seus principais produtos eram o charque e o couro. As charqueadas produziam para a alimentação dos escravos africanos, indo em grande quantidade para abastecer a atividade mineradora nas Minas Gerais e para as plantações de cana-de-açucar e para a região sudeste onde iniciava-se a cafeicultura. A região, desse modo, encontrava-se muito dependente do mercado brasileiro de charque, que com o câmbio supervalorizado, e benefícios tarifários, podia importar o produto por custo mais baixo. Além disso, instalava-se nas Províncias Unidas do Rio da Prata, uma forte indústria saladeiril, da qual participava Rosas, e que, junto com os saladeros do Uruguai (que deixara de ser brasileiro) competiria pela compra de gado da região, pondo em risco a viabilidade econômica das charqueadas sul-riograndenses.

Conseqüentemente, o charque rio-grandense tinha preço maior do que o similar oriundo da Argentina e do Uruguai, perdendo assim competitividade no mercado interno. A tributação da concorrência externa era uma exigência dos estancieiros e charqueadores . Esta tributação não era do interesse dos principais compradores brasileiros que eram os que detinham as concessões das lavras de mineração, os produtores de cana-de-açucar e os cafeicultores, pois veriam reduzida a lucratividade das mesmas, por maior dispêndio na manutenção dos escravos.

Há que considerar, ainda, que o Rio Grande do Sul, como região fronteiriça à região platina, fôra, desde o século XVII, colonizado por um sistema de concessão de terras a chefes militares, que dispunham de autonomia para opor-se militarmente ao fraco exército imperial na região. Ainda mais, na então ainda recente e desastrosa Guerra da Cisplatina, que culminou com a perda da área territorial do Uruguai, anteriormente anexada ao Brasil, as posições dos militares e caudilhos locais foram sobrepujadas por comandos oriundos da corte imperial (como o Marquês de Barbacena}.

Também é preciso citar o conflito ideológico presente no Rio Grande do Sul a partir da criação da Sociedade Militar, um clube com simpatia pelo Império e até mesmo suspeito de simpatizar com a restauração de D. Pedro I. Os estancieiros rio-grandenses não viam com bons olhos a Sociedade Militar e pediam que o governo provincial a colocasse na ilegalidade.

 A guerra

Retrato de Antônio de Sousa Netto, século XIX. Acervo do Museu Júlio de Castilhos

Azevedo Dutra: Retrato de Antônio de Sousa Netto, século XIX. Acervo do Museu Júlio de Castilhos

No ano de 1835 os ânimos políticos estavam exaltados. O descontentamento de estancieiros, liberais , industriais do charque, e militares locais promoviam reuniões em casas de particulares, destacando-se a figura de Bento Gonçalves.

Naquele ano foi nomeado como presidente da Província Antônio Rodrigues Fernandes Braga, nome que, inicialmente agradou aos liberais, aos poucos se mostrou pouco digno de confiança. No dia em que tomou posse, Fernandes Braga fez uma séria acusação de separatismo contra os estancieiros rio-grandenses, chegando a citar nomes, o que praticamente liquidou as chances de conviver em paz com os seus governados.

As hostilidades iniciaram-se na capital Porto Alegre, em 20 de setembro de 1835, e com a prisão do governador e membros do Partido Conservador. Quase toda a Província, com exceção da cidade do Rio Grande foi controlada pelos revoltosos por um breve período de tempo.

Em 1836, os revoltosos foram surpreendidos pela insurgência de uma reação conservadora em Porto Alegre, comandada pelo General Manuel Marques de Sousa, que retomou a cidade. No mesmo ano, no combate da Ilha do Fanfa, no Rio Jacuí, Bento Gonçalves, que liderava a revolta foi feito prisioneiro pelas forças imperiais e levado à prisão no Rio de Janeiro.

Sem o controle da capital e do único porto marítimo da província, os revoltosos estabeleceram quartel-general na cidade de Piratini. Após a vitória militar do Seival, em 11 de setembro de 1836, o General Antônio de Sousa Netto proclamou a República Rio-Grandense. Foi estabelecida a capital na pequena cidade de Piratini, donde surgiu uma nova alcunha depreciativa pelos opositores monárquicos, República de Piratini.

Retrato de Bento Gonçalves, século XIX. Acervo do Museu Júlio de Castilhos

Retrato de Bento Gonçalves, século XIX. Acervo do Museu Júlio de Castilhos

“Éramos o braço direito e também a parte mais vulnerável do Império. Agressor ou agredido, o governo nos fazia sempre marchar à sua frente: disparávamos o primeiro tiro de canhão e éramos os últimos a recebê-lo. Longe do perigo dormiam em profunda paz as outras Províncias, enquanto nossas mulheres, nossos filhos e nossos bens, presa do inimigo, ou nos eram arrebatados ou mortos, e muitas vezes trucidados cruelmente. Sobre povo algum da terra carregou mais duro e mais pesado o tempestuoso aboletamento; transformou-se o Rio Grande numa estalagem do Império”, proclamaram Bento Gonçalves da Silva e Domingos José de Almeida em 29 de agosto de 1838, na cidade de Piratini.

Foi adotada uma constituição republicana conclamando as demais províncias brasileiras a unirem-se como entes federados no sistema republicano, um hino nacional e bandeira própria do novo estado, até hoje cultivados pelo Estado do Rio Grande do Sul. Bento Gonçalves da Silva, eleito Presidente da República pela Assembléia Nacional Republicana, evadiu-se da prisão em Salvador na Bahia e com ajuda dos liberais bahianos, que realizavam a Sabinada, e financiado por Irineu Evangelista de Sousa, o maior empresário do Império, retornou para liderar a República.

A república Riograndense tinha escasso apoio nas áreas colonizadas pela recente imigração alemã. Estes imigrantes haviam se fixado na desativada Real Feitoria do Linho Cânhamo em colônias cedidas pelo Império, no Vale do Rio dos Sinos, e esboçava uma indústria manufatureira. Em Porto Alegre, apesar da simpatia de parte das camadas médias, da qual proveio Pedro Boticário, um ideólogo do abolicionismo, não recebia o apoio popular, que mobilizava outras cidades da Província de São Pedro do Rio Grande. Inicialmente sua base social era originária de liberais, militares, industriais do charque e, especialmente de estancieiros com capacidade de liderar exércitos particulares de “peões“, vaqueiros que lhes prestavam serviços ou deles dependiam para subsistência e defesa e cuja obediência e fidelidade era garantida por traços feudais da cultura local; e por escravos, que no meio rural eram incluídos no convívio social dos peões. Como haviam interfaces com o Uruguai, também eram contratados elementos de lá provenientes. Os exímios cavaleiros forjados nas lides campeiras, chamados “gaúchos” formavam corpos de cavalaria de choque aptos a travar uma guerra de guerrilha. Esses exércitos dispunham de alta mobilidade e conhecimento do terreno, mas sem dispor de infantaria nem adequada artilharia, os Farroupilhas tinham fraca capacidade bélica contra as cidades fortificadas do Rio Grande e Porto Alegre, e pouca capacidade de defesa das praças que controlavam.

A Marinha Imperial Brasileira controlava os principais meios de comunicação da Província, a Lagoa dos Patos, entre Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande e a maior parte dos rios navegáveis. O fator estratégico de maior efeito a favor do Império era o bloqueio da Barra da Lagoa dos Patos, único acesso ao porto de Rio Grande, por onde desembarcavam continuamente os reforços imperiais. O insucesso, apesar de enorme esforço para tomada dessas praças, em controlá-las como um dos movimentos militares iniciais, deu pretexto a lideranças de objetivos menos firmes, como Bento Manuel, tido como fiel da balança do confronto, para abandonar os revolucionários. A República, na segunda parte do confronto procurava manter a supremacia conquistada na região geográfica da serra do sudeste do Rio Grande do Sul, de relevo irregular e com um rio apenas que comunicava com a Lagoa dos Patos, o Camaquã.

Alegoria Farroupilha, guache do século XIX. Acervo do Museu Júlio de Castilhos

Alegoria Farroupilha, guache do século XIX. Acervo do Museu Júlio de Castilhos

A sustentação econômica da República era propiciada pelo apoio da vizinha República Oriental do Uruguai, que permitia o comércio do charque produzido pelos rio-grandenses para o próprio Brasil. A exportação era feita por terra até o Porto de Montevidéu, ou pelo Rio Uruguai.

 A paz

A paz só veio em 1840, quando o governo da regência resolveu negociar com os farrapos. Em 1842, foi finalmente promulgada a Constituição da República, o que deu um ânimo momentâneo à luta. Nesse mesmo ano, entretanto, foi nomeado para presidente do Rio Grande do Sul o experimentado general Luís Alves de Lima e Silva, então Barão de Caxias. Este iniciou uma campanha de estrangulamento da economia da República, atacando as cidades da fronteira que permitiam o escoamento da produção de charque para Montevidéu. Luís Alves de Lima e Silva recebeu instruções do Império, que temia o avanço de Rosas sobre o território litigante, para propor condições honrosas aos revoltosos, como: a anistia dos oficiais e homens, sua incorporação ao Exército Imperial nos mesmos postos, e a escolha do Presidente da Província pela Assembléia Provincial, taxações sobre o charque importado do Prata. Entretanto, uma questão permanecia insolúvel, a dos escravos libertos pela República para servir no exército republicano. Para o Império Brasileiro, era inaceitável reconhecer a liberdade de escravos dada por uma sedição, embora anistiasse os líderes da mesma revolta.

Responsável pela continuidade da revolta pelos elementos mais radicais, o impasse foi resolvido após as duas últimas derrotas militares dos farroupilhas, o massacre dos Porongos, quando a maior parte de um dos corpos militares dos Lanceiros Negros foi aniquilado em uma posição de difícil defesa. Dos escravos sobreviventes, alguns acompanharam o exército do General António Neto em seu exílio no Uruguai, outros foram incorporados ao Exército Imperial e muitos foram vendidos novamente como escravos no Rio de Janeiro. A paz veio, com o Tratado ou Convênio de Ponche Verde, assinado entre David Canabarro e o Duque de Caxias.

A atuação de Luís Alves de Lima e Silva foi tão nobre e correta para com os oponentes que a Província, novamente unificada, o indicou para senador. O Império, reconhecido, outorgou ao general o título nobiliárquico de Conde de Caxias (1845). Mais tarde, (1850), com a iminência da Guerra contra Rosas seria indicado presidente da Província de São Pedro do Rio Grande.

 Media

Sound Hymno Republicano Riograndense de 1835?

  • Notas sobre o “Hymno republicano riograndense de 1835”: A partitura manuscrita pertencente ao acervo do Museu Júlio de Castilhos, Porto Alegre, e nela consta a inscrição “Este hino foi solfejado pelo m…(palavra ilegível, interpretada pelos técnicos do Museu como ministro) Augusto Pereira Leitão, revolucionário de 35“. O acorde dissonante de abertura segue a notação original, mas possivelmente na prática deveria ser harpejado à guisa de introdução. Foram alterados acidentes nos compassos 14 e 18 que indicavam Lá#, incongruente com a clave de Fá maior (talvez erro de cópia), e acrescentado um # no Fá do baixo, que constava natural contra um Fá# da melodia acima, na falsa preparação para Sol menor. Também uma nota do baixo do segundo compasso foi alterada de Lá para Sib por aparentemente ser um erro de harmonia, comparando-se com passagem idêntica mais adiante que traz o Sib no mesmo ponto

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