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Maomé

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Miniatura persa que retrata a ascensão de Muhammad ao céu.

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Muhammad, Muḥammad (Maomé) ou Moḥammed (em árabe: مُحَمَّد, Ltspkr.png pronúncia ajuda · ficheiro · ouvir no browser) (Meca, c. 570Medina, 8 de Junho de 632) foi um líder religioso e político árabe. Segundo a religião islâmica, Muhammad é o mais recente e último profeta do Deus de Abraão.

Para os muçulmanos, Muhammad foi precedido em seu papel de Profeta por Jesus, Moisés, Davi, Jacob, Isaac, Ismael e Abraão. Como figura política, ele unificou várias tribos árabes, o que permitiu as conquistas árabes daquilo que viria a ser um império islâmico que se estendeu até à Europa (incluindo Portugal).

Não é considerado pelos muçulmanos como um ser divino, mas sim, um ser humano; contudo, ele é visto como um dos mais perfeitos entre os seres humanos.

Nascido em Meca, Maomé foi durante a primeira parte da sua vida um mercador que realizou extensas viagens no contexto do seu trabalho.

Maomé tinha por hábito retirar-se para orar e meditar nos montes perto de Meca. Os muçulmanos acreditam que em 610, quando Maomé tinha quarenta anos, enquanto realizava um desses retiros espirituais numa das cavernas do Monte Hira, foi visitado pelo anjo Gabriel que lhe ordenou que recitasse uns versos enviados por Deus. Estes versos seriam mais tarde recolhidos e integrados no Alcorão. Gabriel comunicou-lhe que Deus tinha-o escolhido como último profeta enviado à humanidade.

Maomé não rejeitou completamente o judaísmo e o cristianismo, duas religiões monoteístas já conhecidas pelos árabes. Em vez disso, Muhammad informou que tinha sido enviado por Deus para restaurar os ensinamentos originais destas religiões, que tinham sido corrompidos e esquecidos.

Muitos habitantes de Meca rejeitaram a sua mensagem e começaram a perseguí-lo, bem como aos seus seguidores. Em 622 Maomé foi obrigado a abandonar Meca, numa migração conhecida como a Hégira (Hijra), tendo se mudado para Yathrib, cidade hoje conhecida como Medina. Nesta cidade, Maomé tornou-se o chefe da primeira comunidade muçulmana. Seguiram-se uns anos de batalhas entre os habitantes de Meca e Medina, que se saldaram em geral na vitória de Muhammad e dos seguidores. A organização militar criada durante estas batalhas foi usada para derrotar as tribos da Arábia. Por altura da sua morte, Maomé tinha unificado praticamente a Arábia sob o signo de uma nova religião, o Islão.

Índice

[esconder]

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 Nome

Muhammad em caligrafia árabe

Muhammad em caligrafia árabe

O nome completo de Muhammad é Abu al-Qasim Muhammad ibn ‘Abd Allah ibn ‘Abd al-Muttalib ibn Hashim, sendo que Muhammad significa em árabe «aquele que é merecedor de elogios». Este nome já era comum na Arábia antes do surgimento do islão, não sendo por isso necessário ver nele um epíteto criado pelo próprio.

A palavra Maomé é uma forma aportuguesada do francês Mahomet, que por sua vez é uma deformação do turco Mehmet, tendo daí derivado os adjectivos portugueses maometano e maometismo para designar, respectivamente, o seguidor e a crença difundida por Muhammad.

Na África Negra muçulmana, o nome foi deformado para Mamadou, e entre os berberes encontra-se a forma Mohand.

Nos textos portugueses mais antigos, este antropónimo aparece grafado de variadíssimas formas, como Mafoma, Mafamede, Mafomede, Mafomade, Mahamed, Mahoma, Mahomet, Mahometes ou Mahometo, sendo Mafamede e Mafoma por ventura as mais divulgadas (de resto, a última forma é correlata do nome do profeta nas outras línguas ibéricas, sendo que em castelhano, catalão, galego e até basco, se diz Mahoma). Desde o século XIX, porém, que tais termos caíram completamente em desuso no português, sendo até considerados contumeliosos, posto que o seu uso, nas crónicas antigas, se fez sempre associado num contexto de cruzada contra a religião muçulmana.

Muhammad em caligrafia árabe

Muhammad em caligrafia árabe

Hoje em dia, porém, alguns arabistas, islamólogos e historiadores lusófonos estão a optar por utilizar a forma Muhammad” em vez de Maomé, por considerarem que esta é a transliteração mais correcta a partir do árabe, sendo sua pronúncia a mais aproximada ao nome original (de facto, nos últimos anos, uma parte significativa e crescente da produção científica em Portugal na área dos estudos árabes e islâmicos tem vindo a consagrar este uso). Neste grupo inclui-se o recém-falecido arabista português José Pedro Machado, autor de uma tradução do Alcorão em português na qual utiliza a forma Muhammad para se referir ao profeta do islão.

Todavia, os principais dicionários da língua portuguesa e alguns lingüistas e lexicógrafos adotam a forma Maomé, vulgarizada por dois séculos de uso[1]. Ademais, a língua árabe não estipula uma transliteração oficial (como o chinês, por exemplo), portanto a representação morfológica no alfabeto latino das palavras em árabe varia enormemente com as particularidades de cada língua. Outro argumento a favor do emprego de Maomé encontra-se no facto que praticamente todos os nomes de personalidades históricas anteriores ao século XX já possuem forma vernácula em português, como Moisés, Jesus, Martinho Lutero, etc. (ainda que, como exposto, as formas vernáculas portuguesas sejam Mafoma ou Mafamede, já que Maomé é um galicismo).

 Fontes

As principais fontes para o estudo da vida de Muhammad são o Corão, as biografias surgidas nos primeiros séculos do islão (nos séculos VIII e IX, conhecidas como siras) e os ahadith.

Embora o Corão não seja uma biografia de Muhammad, ele proporciona informações sobre a sua vida. Entre as suras, destaca-se a sura de Ibn Ishaq. Os ahadith (singular:hadith), são os relatos daquilo que o profeta disse, fez ou aprovava, e foram transmitidos através de uma cadeia oral.

Vida

Maomé, nos braços da mãe, Amina, em miniatura turca-cristã, ambos com o rosto velado.

Maomé, nos braços da mãe, Amina, em miniatura turca-cristã, ambos com o rosto velado.

Muhammad nasceu em Meca a 12 de Rabi al-Awwal (terceiro mês do calendário árabe) no “ano do Elefante”. Este ano recebeu esta denominação porque nele se verificou o ataque de pelas tropas de Abraha (governador do sul da Arábia ao serviço do imperador da Etiópia) que estavam equipadas com elefantes. Na era cristã este ano corresponde a 570.

Muhammad pertencia ao clã dos Haxemitas, por sua vez integrado na tribo dos Coraixitas (Quraysh, “tubarão”). Era filho de Abdullah e de Amina. O pai de Muhammad faleceu pouco tempo antes do seu nascimento, deixando à esposa como herança cinco camelos e uma escrava.

Entre as famílias de Meca existia na época a tradição de entregar temporariamente as crianças às famílias beduínas que viviam no deserto, uma vez que se considerava que o clima de Meca era pouco saudável; para além disso, acreditava-se que uma temporada de vida no deserto preparia melhor a criança para a vida adulta. Em troca desta adopção temporária, os beduínos recebiam presentes dos habitantes de Meca. Apesar das limitações económicas, Amina entregou Muhammad aos cuidados de uma ama-de-leite chamada Halíma (Haleemah).

Quando Muhammad tinha seis anos de idade a sua mãe faleceu. Muhammad passou a viver então com o seu avô paterno, Abu al-Muttalib, e com os filhos destes, entre os quais se encontravam Abbas e Hamza e que eram praticamente da mesma idade que Muhammad, fruto de um casamento tardio do avô. Abu al-Muttalib ocupava em Meca o importante cargo de siqáya (serviço de distribuição pelos peregrinos da água sagrada do poço de Zamzam).

O Profeta Maomé, recitando o Alcorão em Meca (grav. séc. XV)

O Profeta Maomé, recitando o Alcorão em Meca (grav. séc. XV)

Dois anos depois, o avô de Muhammad faleceu e este foi viver com o seu tio Abu Talib, novo chefe do clã Hachemita.

Meca era nesta altura uma cidade-estado no deserto, onde se encontrava um santuário conhecido por Kaaba (“o Cubo”) administrado pelos Coraixitas. A Kaaba era venerada por todos os Árabes, sendo alvo de uma peregrinação anual. Nela se encontra a Pedra Negra e uma série de ídolos, representações de deusas e de deuses, dos quais se destacava o deus nabateu Hubal. Alguns habitantes de Meca distanciavam-se quer dos cultos pagãos, quer do monoteísmo dos judeus e dos cristãos, declarando-se hunafá, isto é, crentes no Deus único de Abraão, que acreditavam ter sido o fundador da Kaaba. Apesar de a cidade não possuir recursos naturais, ela funcionava como um centro comercial e religioso, visitado por muitos comerciantes e peregrinos.

Durante a adolescência Muhammad foi pastor e teria também acompanhado o seu tio em expedições comerciais à Síria. Segundo os relatos muçulmanos, quando Muhammad, o seu tio e outros acompanhantes regressavam de uma destas viagens cruzaram-se perto de Bosra com um eremita cristão chamado Bahira que após ter examinado Muhammad concluiu que este era o enviado que todos aguardavam. Bahira recomendou a Abu Talib que levasse o seu sobrinho para Meca e que velasse pelo bem-estar deste.

Gravura otomana cristã, retratando o momento da revelação pelo Anjo Gabriel do Alcorão para o Profeta Maomé

Gravura otomana cristã, retratando o momento da revelação pelo Anjo Gabriel do Alcorão para o Profeta Maomé

Por volta de 595 Muhammad conheceu Cadija, uma viúva rica de 40 anos de idade. O jovem Muhammad (na altura com 25 anos de idade) impressionou Cadija pela sua honestidade nos negócios de tal forma que ela propôs o casamento. Este casamento representou uma mudança social para Muhammad, já que segundo os costumes árabes da época os menores não herdavam, razão pela qual Muhammad nada tinha recebido da herança do pai e do avô. Muhammad permaneceu com Cadija até à morte desta em 619. Cadija teve seis filhos de Muhammad, quatro mulheres (Zainab, Ruqayyah, Umm Kulthum e Fátima e dois homens (Al-Qasim e Abdullah, que faleceram durante a infância).

Habitualmente afirma-se que Muhammad teria sido analfabeto[2]; contudo, é provável que tenha possuído conhecimentos rudimentares de escrita, necessários a alguém que desempenhou funções na área do comércio.

O seu tio Zubair fundou a ordem de cavalaria conhecida como a Hilf al-fudul, que assistia os oprimidos, habitantes locais e visitantes estrangeiros. Muhammad foi um membro entusiasta. Muhammad ajudou na resolução de disputas, e tornou-se conhecido como Al-Ameen (“o confiável”) devido à sua reputação sem mácula nestas intermediações. Como exemplo, quando a Kaaba sofreu danos após uma inundação, e todos líderes de Meca queriam receber a honra de resolver o problema, Muhammad foi nomeado para solucionar a situação. Muhammad propôs que estendessem um lençol branco no chão, que colocassem a Pedra Negra (também conhecida como Hajar el Aswad) no meio e pediu aos líderes tribais que a transportassem ao seu devido local, segurando os cantos do lençol. Chegados ao devido local, o próprio Muhammad tratou de a colocar na posição devida.

 Vida familiar

Durante a sua vida e depois da morte de Cadija, Muhammad viria a casar com outras quinze mulheres, na sua maioria viúvas, excepto Aisha. Estas mulheres eram viúvas de companheiros de Muhammad, tinham uma idade avançada e o casamento com o profeta surgia como uma forma de garantir protecção e estabilidade económica. Em outros casos os casamentos serviram para cimentar alianças políticas.

Uma das esposas mais importantes de Muhammad foi Aisha (عائشة), a sua segunda esposa, que tinha seis anos de idade na altura do seu noivado e segundo registos, quatorze anos na altura de seu casamento com o profeta.[3]

 Morte e legado

Mesquita do Profeta em Medina, onde se encontra o túmulo de Muhammad

Mesquita do Profeta em Medina, onde se encontra o túmulo de Muhammad

Um ano antes da sua morte, Muhammad dirigiu-se pela última vez aos seus seguidores naquilo que ficou conhecido como o sermão final do profeta. A sua morte em Junho de 632 em Medina, com a idade de 63 anos, deu origem a uma grande crise entre os seus seguidores. Na verdade, esta disputa acabaria por originar a divisão do Islão nos ramos dos Sunitas e Xiitas. Os Xiitas acreditam que o profeta designou Ali ibn Abu Talib como seu sucessor, num sermão público na sua última Hajj, num lugar chamado Ghadir Khom, enquanto que os sunitas discordam.

Revelação

Caverna do Monte Hira

Caverna do Monte Hira

Muhammad tinha por hábito passar noites nas cavernas das montanhas próximas de Meca, praticando o jejum e a meditação. Sentia-se desiludido com a atmosfera materialista que dominava a sua cidade e insatisfeito com a forma como órfãos, pobres e viúvas eram excluídos da sociedade. A tradição muçulmana informa que no ano de 610, enquanto meditava numa caverna do Monte Hira, Muhammad recebeu a visita do arcanjo Gabriel (Jibreel) que o declarou como profeta de Deus. Desde este momento e até à sua morte, Muhammad recebeu outras revelações.

Ao receber estas mensagens, Muhammad teria transpirado e entrado em estado de transe. A visão do arcanjo Gabriel teria perturbado Muhammad, mas a sua mulher Cadija o reconfortou, assegurando que não se trataria de uma possessão de um génio. Para tentar compreender o sucedido o casal consultou Waraqa, um primo de Cadija que se acredita ter sido cristão. Com a ajuda deste Muhammad interpretou as mensagens como sendo uma experiência idêntica à vivida pelos profetas do judaísmo e cristianismo.

As primeiras pessoas a acreditar na missão profética de Muhammad foram Cadija e outros familiares e amigos que se reuniam na casa de um homem chamado al-Arqam. Por volta de 613, encorajado pelo seu círculo restrito de seguidores, Muhammad começou a pregar em público. Ao proclamar a sua mensagem na cidade, Muhammad ganhou seguidores, incluindo os filhos e irmãos do homem mais rico de Meca. A religião que ele pregou tornou-se conhecida como o islão (“submissão à vontade de Deus”).

À medida que os seus seguidores cresciam, ele se tornava uma ameaça para as tribos locais, especialmente aos Coraixitas, a sua própria tribo, que tinha a responsabilidade pelo cuidado da Kaaba, que nesta altura hospedava centenas de ídolos que os Árabes adoravam como deuses.

 Rejeição

O Profeta orando na Kaaba, numa gravura otomana do séc. XVI. O rosto do profeta está vendado, comum na arte islâmica da época.

Apesar da mensagem monoteísta de Muhammad ter sido aceita por alguns habitantes de Meca, muitos rejeitaram-na. Os conceitos religiosos apresentados por Muhammad, e em particular a ideia de um Julgamento Final, geravam incredulidade e zombaria junto dos mequenses. Pediam-lhe que fizesse um milagre capaz de comprovar as suas alegações ou então acusavam-no de estar possuído por um djiin (um espírito maligno). Para além disso, ele tornou-se muito impopular com os governantes, e seus seguidores foram alvos de ataques físicos repetidos, bem como de ataques às suas propriedades. De acordo com os relatos, alguns dos habitantes de Meca lançaram ataques vigorosos e brutais contra esta nova religião: forçaram pessoas a deitar-se sobre areia ardente, colocaram enormes pedras sobre seus peitos, derramaram ferro derretido sobre eles. Muitos teriam morrido, mas a fé prevaleceu. Esta perseguição não atingiu inicialmente o próprio Muhammad, pelo simples motivo de que a sua família detinha muita influência. No entanto, estas circunstâncias tornaram-se intoleráveis e Muhammad aconselhou alguns dos seus seguidores a irem para a Abissínia por volta do ano 615.

Os mequenses obrigaram Muhammad a deixar a sua missão religiosa oferecendo-lhe poder político. À medida que os seguidores de Muhammad aumentaram, os seus oponentes tentaram demovê-lo a deixar ou alterar a sua religião. Ofereceram-lhe uma boa parte do comércio e o casamento com mulheres de algumas das famílias mais ricas, mas ele rejeitou todas estas ofertas. Os habitantes de Meca acabaram por exigir que Abu Talib entregasse o seu sobrinho Muhammad para execução. Uma vez que ele recusou, a oposição exerceu pressão comercial contra a tribo de Muhammad e seus apoiantes. Houve também uma tentativa de assassinato. Após a morte do seu tio e de Cadija no ano de 619 (ano a que a tradição muçulmana se refere como o “Ano da Tristeza”), o próprio clã de Muhammad retirou-lhe a proteção. Muhammad mudou-se então para a cidade de at-Ta’if, onde não encontrou apoio por parte dos seus habitantes. Por esta razão ele regressou à Meca. Então sofreu abusos, foi apedrejado e atirado contra espinhos e lixo. Os seus inimigos preparavam-se para tentar novamente assassiná-lo.

 A Hégira

Em 622 e em resultado do incremento da perseguição aos muçulmanos estes começaram a deixar Meca em direcção a Yathrib, uma cidade a cerca de 350 km a norte de Meca, que mais tarde passaria a ser conhecida por Medina. Esta migração é conhecida como a Hégira, palavra por vezes traduzida como “fuga”, embora o seu sentido preciso seja de “emigração”, mas não num sentido geográfico, mas de separação em relação à família e ao clã. O calendário islâmico tem início no dia em que começou a Hégira, 16 de Julho de 622.

A migração de Meca para Medina não foi um acto impulsivo, mas o resultado de contactos prévios. No Verão de 621, doze homens de Medina visitaram Meca durante a peregrinação anual e declararam-se muçulmanos. Em Junho do ano seguinte uma delegação de setenta e cinco medineneses também se declara muçulmana em Meca e jura proteger Maomé de qualquer ataque. Os primeiros muçulmanos começaram a abandonar Meca em Julho de 622; na época a viagem duraria nove dias. Os muçulmanos partiram em pequenos grupos e como tal não se gerou desconfiança entre os mequenses.

Muhammad partiu em Setembro, tendo conseguido escapar a um plano que visava matá-lo. O plano estabelecia que um homem pertecente a cada um dos clãs de Meca enfiaria a sua espada em Muhammad; desta forma, a vingança (conceito enraizado entre as tribos árabes) seria difícil de concretizar. O plano fracassou uma vez que Muhammad fugiu durante a noite, tendo deixado a dormir na sua cama Ali, vestido com o seu manto verde. Quando o grupo pretendia executar o plano deparou-se com Ali, que nada sofreu. Maomé chegaria a Medina a 24 de Setembro.

Medina era um oásis que tinha na agricultura a sua principal actividade económica. Nesta cidade viviam três tribos judaicas, talvez aí chegadas depois da destruição do Segundo Templo pelos Romanos em 70 e duas tribos árabes pagãs, os Khazradj e os Aws. Os habitantes de Medina esperavam que Muhammad os unisse e evitasse incidentes tais como a guerra civil de 618, na qual muitas vidas se tinham perdido.

Os anos em Medina

Cronologia
Datas e locais importantes na vida de Maomé
c. 569 Morte do pai, `Abd Allah
c. 570 Possível data de nascimento, 20 de Abril: Meca
570 Fracasso do ataque abissínio sobre Meca
576 Morte da mãe
578 Morte do avô
c. 583 Viagens à Síria
c. 595 Conhece e casa com Khadija
610 Início da revelação do Alcorão: Meca
c. 610 Apresenta-se como profeta: Meca
c. 613 Começa a pregar publicamente a sua mensagem: Meca
c. 614 Começa a reunir seguidores: Meca
c. 615 Emigração de muçulmanos para a Abissínia
616 O clã Banu Hashim inicia boicote económico
c. 618 Guerra civil medinense: Medina
619 Termina o boicote dos Banu Hashim
c. 620 Isra e Miraj
622 Emigra para Medina (Hijra)
624 Batalha de Badr Muçulmanos derrotam Meca
625 Batalha de Uhud
c. 625 Expulsão da tribo Banu Nadir
626 Ataque a Dumat al-Jandal: Síria
628 Batalha da Trincheira
627 Destruição da tribo Banu Qurayza
c. 627 Subjuga a tribo Bani Kalb: Dumat al-Jandal
628 Tratado de Hudaybiyya
c. 628 Conquista acesso ao santuário da Kaaba
628 Conquista do oásis de Khaybar
629 Primeira peregrinação
629 Ataque fracassado ao Império Bizantino: Mu’ta
630 Entra em Meca que conquista pacificamente
c. 630 Batalha de Hunayn
c. 630 Cerco de al-Ta’if
630 Estabelece uma teocracia: Meca
c. 631 Domínio sobre quase toda a Arábia
c. 632 Ataca os Gasánidas: Tabuk
632 Peregrinação de despedida
632 Morte (8 de Junho): Medina

Um documento conhecido como a Constituição de Medina revela como se estabeleceu uma confederação entre os seguidores de Muhammad de Meca e os habitantes de Medina (Umma). O preâmbulo do documento refere-se a Muhammad como “profeta” e estabelece que as disputas devem ser submetidas à mediação deste, mas não lhe outorgou qualquer tipo de autoridade especial. Contudo, nos últimos anos da sua vida Muhammad tornou-se soberano da cidade em resultado do prestígio concedido pelas campanhas militares.

Muhammad aprovou ataques a caravanas coraixitas que negociavam com a Síria, o próprio Muhammad participou de três ataques, que resultaram em fracassos.

Guerras

Em Março de 624 Muhammad preparou um ataque a uma caravana de Meca que regressava da Síria. A caravana, liderada por Abu Sufyan (líder do clã omíada), conseguiu enganar os muçulmanos. Contudo, Abu Jahal de Meca (líder do clã Makhzum) que se tinha previamente oposto a Muhammad e organizado um boicote contra o clã Haxemita, pretendia ensinar-lhe uma lição.

A 15 de Março de 624, próximo de um lugar chamado Badr, as duas forças colidem. Apesar de serem apenas 300 mal equipados contra 800 mequenses melhores equipados na batalha, os muçulmanos tiveram sucesso, matando pelo menos 45 naturais de Meca, incluindo Abu Jahl, e tomando 70 prisioneiros, com apenas 14 baixas muçulmanas. Para os muçulmanos a vitória foi encarada como uma confirmação da missão profética de Muhammad. Muitos habitantes de Medina converteram-se ao islão e Muhammad tornou-se o governador de facto da cidade.

Várias importantes alianças pelo casamento ocorreram nesta altura. Das filhas de Muhammad, Fátima casou com Ali (seria mais tarde o quarto califa) e Umm Kulthum casou com Otman (o terceiro califa entre 644 e 656). O próprio Muhammad, já casado com Aisha, filha de Abu Bakr (o primeiro califa) casou então com Hafsah, a filha de Omar (o segundo califa), cujo marido tinha falecido na Batalha de Badr.

As relações com os judeus de Medina começaram a se degradar. Para estes eram impossível aceitar a mensagem religiosa de um homem que colocava Moisés, João Baptista e Jesus no mesmo grau de consideração religiosa. Por volta desta altura, Muhammad mudou a direcção da Qibla de Jerusalém para Meca.

A 21 de Março de 625, Abu Sufyan, em busca de vingança, entrou em Medina com 3 000 homens. Na manhã de 23 de Março começou a luta. A batalha não produziu um vencedor ou perdedor óbvios, apesar dos habitantes de Meca terem clamado a vitória. Nos dois anos seguintes, ambos os lados preparam-se para o encontro decisivo.

Em Abril de 627, Abu Sufyan liderou uma grande confederação de 10 000 homens contra Medina. Muhammad ordenou que fosse cavada uma tricheira à volta de Medina, por sugestão do escriba persa Salman e-Farsi. O exército não conseguiu entrar na cidade. Por sua vez, os agentes de Muhammad enviados do junto do exército conseguiram provocar algumas deserções. Depois de uma noite marcada pelo vento e chuva, o exército de Sufyan acabou por se desagregar.

Após a retirada de Abu Sufyan e suas forças, os muçulmanos dirigiram a sua atenção para os grupos que tinham cometido traição ao acordo de Medina. Os munafiqun desmoronaram-se rapidamente, e seu líder Abdullah ibn Ubayy prometeu aliança com Muhammad. Os muçulmanos cercaram então os Banu Qurayza, que tinha conspirado contra eles. Eles tinham tido a oportunidade de escolher Muhammad como árbitro, mas em vez disso, os Banu Qurayza escolheram Saad ibn Muadh, o líder dos seus antigos aliados da tribo Aws.

Saad tinha sofrido uma ferida letal na batalha contra as forças de Abu Sufyan e ordenou a execução das forças activas da tribo, consistindo de todos os seus homens adultos. Ele permitiu às mulheres não-combatentes e às crianças viverem como escravos para o resto da vida, como era tradição do tempo. Mais tarde, comentadores argumentaram que o punimento de Banu Qurayza era conforme aos ditames da Bíblia hebreia sobre a guerra; no entanto, as fontes originais da sirah não mencionam isto.

Conquista de Meca

Por volta de 627 Muhammad tinha unido Medina sob o Islão, com o desaparecimento dos seus inimigos internos. Os beduínos, após um período de batalhas e negociações, tornaram-se aliados de Muhammad e aceitaram a sua religião. Depois de muito contacto com a cidade e com os muçulmanos, alguns converteram-se gradualmente. Por esta altura, as revelações que supostamente tinham visitado Muhammad, chegaram ao fim. Ele regressou então a Meca para tomar posse da Kaaba.

Muhammad colocou os cidadãos de Meca sobre pressão económica, destinada primeiramente a ganhar a adesão deles ao Islão. Em Março de 628, ele partiu para a “peregrinação” a Meca, com 1600 militares que o acompanhavam. Os naturais de Meca no entanto, puseram travo ao avanço destas forças nos limites do seu território, em Al-Hudaybiyah. Alguns dias depois, os de Meca fizeram um tratado com Muhammad. Com negociação e o consentimento dos mais velhos Coraixitas, ele fez uma peregrinação à Kaaba, desarmado. As hostilidades iriam ter um fim e os muçulmanos iriam conseguir a permissão para fazer a peregrinação a Meca no próximo ano. O casamento de Muhammad com Habiba, filha de Abu Sufyan (antigo inimigo de Muhammad) cimentou ainda mais o tratado.

Após um certo período, o acordo extinguiu-se e a guerra rebentou. Em Novembro de 629, aliados de Meca atacaram um aliado de Muhammad, o que levou Muhammad a romper o tratado de Al-Hudaybiyah. Após planeamento secreto, Muhammad marchou sobre Meca em Janeiro de 630 com 10.000 combatentes. Não houve derramamento de sangue. Abu Sufyan e outros líderes de Meca submeteram-se formalmente. Muhammad prometeu uma anistia geral (com algumas pessoas especificamente excluídas). Apesar de ele não os ter forçado, muitos habitantes de Meca converteram-se ao islão. Em Meca, Muhammad destruiu os ídolos na Kaaba e em outros pequenos santuários.

 Unificação da Arábia

Após a Hégira, Muhammad começou a estabelecer alianças com tribos nómadas. À medida que a sua força e influência cresceu, Muhammad insistiu que as tribos potencialmente aliadas se tornassem muçulmanas.

Quando estava em Meca, Muhammad foi informado de que havia uma grande concentração de tribos hostis e ele partiu para as defrontar. A batalha teve lugar em Hunain, e os inimigos foram derrotados. Alguns viram agora Muhammad como o homem mais poderoso da Arábia e a maioria das tribos enviou delegações para Medina, em busca de uma aliança. Antes da sua morte, rebeliões ocorreram em uma ou duas partes da Arábia mas o estado islâmico tinha força suficiente para lidar com elas.

 Veneração de Muhammad

Gravura Otomana, retratando o momento da morte de Maomé (1596)

Gravura Otomana, retratando o momento da morte de Maomé (1596)

Usualmente, quando um muçulmano se refere a Muhammad, Jesus ou outro dos profetas, imediatamente após o nome diz ou escreve “que a paz e benção de Allah estejam sobre ele” ou expressão equivalente em outra língua (frequentemente árabe), ou ainda usa a sigla dessa expressão. Em inglês, por exemplo, é aceitável usar “pbuh” ou “peace be upon him“. A sigla tradicional em árabe é “swas“.

Muhammad é considerado pela comunidade muçulmana como um modelo a seguir. A devoção à sua pessoa tem sido expressa ao longo dos séculos das mais variadas formas, como por exemplo através da escrita de poemas. Um dos poemas mais famosos, a “Burda” (ou “Poema do Manto”) foi composto no século XIII por Al-Busiri. Embora não exista registro de milagres feitos por Muhammad, alguns relatos populares atribuem-lhe essa capacidade.

Em vários locais do mundo muçulmano existem santuários dedicados a um pêlo da sua barba. No Palácio Topkapı em Istambul um relicário guarda aquilo que se acredita ter sido o seu manto, as suas espadas, bem como uma pegada que ficou registada numa superfície enlameada e alguns pêlos da sua barba.

Alguns muçulmanos celebram o nascimento de Muhammad (Mawlid), embora outros considerem que essa celebração é incorrecta por se tratar de uma inovação religiosa proibida pelo islão. Estes muçulmanos são igualmente contra a veneração destas relíquias, por considerarem tratar-se de idolatria.

 Representações de Muhammad

As representações visuais do profeta podem eventualmente ser proibidas[4] e consideradas insultuosoas. Geralmente os xiitas e os sufis aceitam mais a idéia da representação, que em geral o islão rejeita, pois à semelhança do judaísmo, o islão é uma religião da palavra e não da imagem.

Recentemente, charges de Muhammad criticando o terrorismo que foram publicadas na Europa causaram muita polêmica, grande furor do mundo islâmico e protestos em todo o mundo, justamente porque é considerada ofensa qualquer imagem que se diz ser de Muhammad. Como vingança, o jornal iraniano Hamshahri[5] fez uma competição internacional de charges sobre o Holocausto.

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